31 de janeiro de 2011
"Tudo é caso de sangue:
(coisas para cada e todo dia... trecho relido e reverberado em mim quando lia o livro da Flávia Liberman, Delicadas Coreografias roubado provisoriamente e com consentimento da maninha Gra)
25 de junho de 2010
Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio
Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você - eles não sabem, o terrível é que eles não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.
15 de janeiro de 2010
Nem prosa, nem poesia.
Então ai vão os escritos da Dinha, "De passagem mas não a passeio" (ah! e dá pra baixar aqui)
I
O ano novo injetou no calendário
nova dose de veneno.
Nos convulsionamos todos
violentamente.
O amor foi atirado
na janela do vizinho:
Fruta podre quebrando
a vidraça do teu peito.
Tentaste juntar os cacos
mas o resultado
feriu tuas mãos vazias.
Então erguemos os olhos e vimos:
Multidões de mãos feridas
Te acenavam como num sonho...
II
O ano entrou chorando
Ou nós é que bebemos
E não vimos que era chuva
O que parecia choro?
O amor foi prolongado
Como um segredo
Dito no ouvido de um homem do povo?
O amor foi quebrado
E é a base de tiros
Que ele sangra.
III
O ano novo entrou correndo
assustado pelos becos.
Entrou com fome.
E as ondas do mar, no mar
Cheiravam sangue.
A esperança que ele trouxe
Em pouco tempo fedia
A escárnio e peixe podre
- por isso anda escondida
nos necrotérios domésticos
das geladeiras e freezers.
Mas o ódio não é capaz
de apontar lugar seguro.
Plantaremos girassóis
Pra espantar esse céu cinza.