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31 de janeiro de 2011

"Tudo é caso de sangue:

Não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar encontros, aumentar a potencia de agir, afetar-se pela alegria, multiplicar afetos que exprimem e envolvem o máximo de afirmação" Deleuze e Parnet, 1998, p.75
(coisas para cada e todo dia... trecho relido e reverberado em mim quando lia o livro da Flávia Liberman, Delicadas Coreografias roubado provisoriamente e com consentimento da maninha Gra)

25 de junho de 2010

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio

Cortazar

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você - eles não sabem, o terrível é que eles não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

(fragmento de Histórias de Cronópios e Famas, escrito por Cortazar em 1962, direto da bolsa da Van, leituras desta semana, do lado de fora do hospital)

3 de fevereiro de 2010

"
a
poesia
desaba
por
dentro
"
.
Chico Buarque ou Zsoze Kosta
em Budapeste

15 de janeiro de 2010

Nem prosa, nem poesia.

E nestes dias de nariz e alma congestionados. Tão sem música e sem palavras. Me alimento daquelas que traduzem a língua que é falada aqui nestas terras. Como as de Mia ou da Dinha, como as Secas e Molhadas, como as de Itamar. E foi com um gosto na boca, sem tradução racional que reli esse livrinho de palavras resistentes e nada reticentes. Capturei. Talvez por estes dias de chuvas que lavam almas ou levam cidades, nas enxurradas que levaram tantas palavras de meu abecedário. Talvez porque "ninguém é cidadão" nem aqui, nem no Haiti, nem pra Milton. Talvez pela surdez de ouvidos que escutam ou pelas cegueiras ensaiadas, automaticas e reais. Talvez porque dizia Samuel que a indignação era aquela "mosca sem asas". Talvez porque mesmo assim a chuva molhou desejos. Talvez porque mesmo assim a lua apareceu cheia, branca e arrepiou pêlos e sonhos. Talvez porque queira plantar girassóis.

Então ai vão os escritos da Dinha, "De passagem mas não a passeio" (ah! e dá pra baixar aqui)


I

O ano novo injetou no calendário
nova dose de veneno.
Nos convulsionamos todos
violentamente.

O amor foi atirado
na janela do vizinho:
Fruta podre quebrando
a vidraça do teu peito.

Tentaste juntar os cacos
mas o resultado
feriu tuas mãos vazias.

Então erguemos os olhos e vimos:
Multidões de mãos feridas
Te acenavam como num sonho...

II

O ano entrou chorando
Ou nós é que bebemos
E não vimos que era chuva
O que parecia choro?

O amor foi prolongado
Como um segredo
Dito no ouvido de um homem do povo?

O amor foi quebrado
E é a base de tiros
Que ele sangra.

III

O ano novo entrou correndo
assustado pelos becos.
Entrou com fome.
E as ondas do mar, no mar
Cheiravam sangue.

A esperança que ele trouxe
Em pouco tempo fedia
A escárnio e peixe podre
- por isso anda escondida
nos necrotérios domésticos
das geladeiras e freezers.

Mas o ódio não é capaz
de apontar lugar seguro.
Plantaremos girassóis
Pra espantar esse céu cinza.