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2 de novembro de 2010

compondo silêncios

Nesses dias que as palavras me faltam, gosto de ouvir um bom samba... e talvez assim significar o que pula cá dentro, assim sem pretensão, assim pela melodia assobiada, pelo refrão, pelo pé a movimentar-se no chão, pelos olhos fechando enquanto o corpo baila. Assim...

Então, esses dias vi essa foto que a Mari publicou, foi deste ano mesmo e até parece há mais tempo. Foi em março, quando chegávamos ao mar pra pular as sete ondas, já que os inícios nunca esperam data marcada. Atrás dos olhos que fotografam havia muito samba ao amanhecer e de pé na areia...

Então, olhar essa fotos deu um aconchego nesses dias de poucas certezas e certa tristeza. Talvez porque alem desse momento de alegria singela, veja esse mar de samba trazendo as aguas de março em mim.


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

(...)

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

20 de março de 2010

Antes de tomar o chuveiro, banhar-me de chuva.

Lembro que um pouco depois dessa época estava pelo Ceará, no ano passado, indo pro sertão, muitas estradinhas bloqueadas por conta de um inverno (período de chuvas) de muita chuva por todo o nordeste.
Anteontem conversava com o 'cearense' e contador de histórias, Renato, que contou-me que ontem lá no Ceará, foi dia de comemoração de Sao José, santo padroeiro. Segundo os saberes do povo do campo de lá, este dia é crucial para saber se serão dias vindouros de seca ou de chuvas. Este dia é quase no mesmo período que o equinocio, dias de "dia" e "noite" com o mesmo período, dias que marcam as mudanças de estação. Saber Vivos que constroem-se de geração para geração.
Será que choveu por lá?

20 de agosto de 2009

Cacau

Antes foi fruta.
Cacau era o nome. Motivo de plantio e lucro na Bahia. Evangelista trabalhou na lavoura até deixar disso. Rumou para outras terras, caminhou para o Ceará. Foi. Deixou o Cacau.
Ceará era terra de outros frutos.
Mas chegando lá a fruta não lhe deixou. Já na pele, virou apelido... Assim, um nome batizado informalmente por amigos, no meio de uma partida de futebol:
- Ô Cacau!
Desses nomes que não são dados pelo nascer, mas sim pela caminhada, construídas a cada pisada. E em todo canto era assim chamado. Foi assim que depois deixou de lado o Xavier, seu segundo nome.
E em cada filho que chegava, deixava um pouco mais de si. Um a um, cada um: Cacau da Costa.
Nome tornado sobrenome por desejo mesmo, batismo de sua história, todos os onze: Cacau.
Carmelia Cacau é uma das filhas, hoje com 86 anos.
Essa história fui sabendo no caminho.
Entre São Paulo e Ceará um pouco, entre Fortaleza e Itapipoca outro pouco, entre Itapipoca e Amontada outro tanto, até encontrar Lagoinha, que já nem era Lagoinha, já virada cidade tinha sido renomeada: Aracatiara.

Essa história fui sabendo no caminho, entre estradas e cidades.

2 de agosto de 2009

Da zoada me carregando...

Já acampei no meio do mato, na praia e dentro de uma enorme caverna, mas o som dos morcegos não me incomodavam tanto assim... Dentro dessa casa, no meio do sertão, dormir assim, sem nenhum mosqueteirozinho está parecendo muito trabalhoso...
Já deitei na rede. Já fui pro chao. Revirei. Desvirei.
Mesmo na rede coberta pelo lençol, essas danadas das muriçocas vem se nenhum pudor. E o proprio cobrir-se deveras já e insuportavel nesse calor.
E alem disso, é uma sinfonia. Passaracos cantam esporadicamente voando, grilos, sapos, dois burricos estacionam em frente a casa, o barulho de duas latas batendo se parar e principamente uma orquestra filarmonica de potentes muriçocas.
E se fosse apenas esses sons... mas as ideias quarando no varal não me deixam dormir.
.
*lembrei desses escritos essa semana ao ver Vau de Sarapalha, uma peça do Grupo Piollin adaptada de um dos contos de Guimarães Rosa. Lindissima. Algumas das cenas os primos se cobrem com seus lençois reclamando dos mosquitinhos. **ah, depois desta noite, ao acordar, em Aracatiara, fui descobrir que as latas na verdade eram sinetas nos pescoços de duas vaquinhas que se alimentavam por ali.

26 de junho de 2009

Caminh.ando

a pé, cochil.ando. de carro, decol.ando. de ônibus, camin.ando. de pau de arara, vo.ando. de caminhão. aterriss.ando. de avião, en.solar.ando

24 de junho de 2009

Na mochila,

Sobrenome de gosto de fruta na boca, dois nomes de cidades no bolso e o nome de uma rua na mochila.

Referenciais para encontrar Ayde.
Minha vó comentou sua preocupação com o interrompimento silencioso da comunicação por cartas com a irmã. As duas não se viam há cerca de trinta anos, mas foi quando a voz e os trejeitos não apareceram nem por postal que a saudade passou a ser mais doída. Não saber de paradeiro. Ela não voltaria para aquelas terras, nem para vê-la (e essa é outra história). Assim, já quando soube de minha ida para aquelas bandas suspirou: "Estará Ayde viva?".
A fruta, é Cacau tornado sobrenome. As vilas, Lagoa Comprida e São Bento. A rua, dos Prassianos.
Nada no Google. Nada no mapa do Ceará. Ninguém por lá conhecia. Nada na Lista Telefônica de Fortaleza.
Tudo na mochila, mais uns dias extras.

17 de junho de 2009

Pausa para o que ainda não encontrou palavra

(Foto Fê Vargas - comunidade da Prainha do Canto Verde, Beberibe - CE)